quinta-feira, 1 de abril de 2021

Monogamia não é monopólio

Eu tenho uma visão muito minha sobre esse assunto.  Queria muito compartilhar porque acho que nessa postagem o essencial é o que não se pode mais ser calado, silenciado e apagado mesmo. Infelizmente,  a experiência histórica precisa ser considerada sobre a interrelação pessoal afetiva, mesmo também esses termos sendo aparentemente repetitivos colocados assim. Então, o que se faz necessário para mim sobre isso é que monogamia, poligamia, heterogamia e homogamia são possibilidades na nossa jornada particular. Eu vejo mesmo que ser ou não ser mono, poli, homo, heterogâmico são estados transitórios,  mesmo não sendo legitimados assim, por isso seja bem mais definida a monogamia nesse formato patriarcal de civilização em que nos encontramos.  Porém, mesmo a monogamia  precisa ser olhada com certa atenção porque faz parte da natureza sexual  da gente; muito embora seja a versão  artificial patriarcal de violência corpórea de monogamia como monopólio (exclusiva sexualidade com um par predefinido, como o casamento  heterossexual teoricamente seria), a versão posta como única. Monogamia não é monopólio em si, mas monopólio é a parte de controle sexual feminino mais exercida pela mentalidade civilizatória centrada no binarismo machológico e, por tudo isso, machocêntrico. Isso não é estritamente sobre homens que impõe uma dominação  sobre mulheres, mas sobre a concepção  de mulher como objeto para o homem que assim, no capitalismo e no liberalismo, se torna o seu proprietário, com o aval político institucional da microfísica do poder patriarcal que entra em nossas casas, tranca os armários em que nos escondemos e rouba o lençol na hora da sessão de autoconhecimento.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Eu tenho uma visão muito minha sobre esse assunto.  Queria muito compartilhar porque acho que nessa postagem o essencial é o que não se pode mais ser calado, silenciado e apagado mesmo. Infelizmente,  a experiência histórica precisa ser considerada sobre a interrelação pessoal afetiva, mesmo também esses termos sendo aparentemente repetitivos colocados assim. Então, o que se faz necessário para mim sobre isso é que monogamia, poligamia, heterogamia e homogamia são possibilidades na nossa jornada particular. Eu vejo mesmo que ser ou não ser mono, poli, homo, heterogâmico são estados transitórios,  mesmo não sendo legitimados assim, por isso seja bem mais definida a monogamia nesse formato patriarcal de civilização em que nos encontramos.  Porém, mesmo a monogamia  precisa ser olhada com certa atenção porque faz parte da natureza sexual  da gente; muito embora seja a versão  artificial patriarcal de violência corpórea de monogamia como monopólio (exclusiva sexualidade com um par predefinido, como o casamento  heterossexual teoricamente seria), a versão posta como única. Monogamia não é monopólio em si, mas monopólio é a parte de controle sexual feminino mais exercida pela mentalidade civilizatória centrada no binarismo machológico e, por tudo isso, machocêntrico. Isso não é estritamente sobre homens que impõe uma dominação  sobre mulheres, mas sobre a concepção  de mulher como objeto para o homem que assim, no capitalismo e no liberalismo, se torna o seu proprietário, com o aval político institucional da microfísica do poder patriarcal que entra em nossas casas, tranca os armários em que nos escondemos e rouba o lençol na hora da sessão de autoconhecimento.

domingo, 28 de março de 2021

Conta a tradição cristã a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém. Sentado sobre um burrinho, foi saudado pela multidão em delírio. Os evangelistas narram que foi recebido por gente que estendia as suas vestes sobre o chão poeirento. As patas do burrinho pisavam os ramos das árvores espalhados para enfeitar seu caminho. Adiante dele, os devotos clamavam, entre delírio e brados de amor e fé: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! 

Menos de uma semana depois, o mesmo Jesus Cristo estava morto. Após humilhações públicas e torturas, foi crucificado – a mais degradante morte que o Império Romano destinava aos que infringiam a Lex Julia Majestatis. Horas antes fora traído, negado e abandonado pelos amigos mais próximos; vira o governador Pilatos lavar as mãos em público e a multidão preferir salvar um conhecido criminoso. Dos que o saudaram dias antes, nem sinal. Na hora decisiva, amargou plena e profunda solidão, a beber vinagre quando estava sedento, a ver suas roupas serem sorteadas entre desconhecidos. Aos pés da cruz, apenas sua mãe e alguns raríssimos amigos.

Jesus não é caso isolado na história da humanidade. Antes e depois dele, oradores, filósofos, poetas, astrônomos, imperadores e modernos cientistas desabaram da glória ao subsolo. De Julio Cesar a Bonaparte; de Hipatia de Alexandria e Alan Turing; de Sócrates a Oscar Wilde.

É do temperamento coletivo a frivolidade. As multidões mudam de opinião ao sabor das circunstâncias. Hoje, herói aplaudido; amanhã pária, candidato à negação pública. Basta uma palavra mal posta, um gesto impensado, uma contrariedade a um tirano.

Em tempo de redes sociais, o fenômeno é ainda mais rápido. Instantâneo, por vezes. É um constante perseguir de popularidade, uma permanente fixação pela ideia de ter milhares de amigos. Ilusão. Modas passam, gostos mudam, os queridinhos da vez cedem lugar aos novos e – já disse o poeta – a mão que afaga também apedreja. Ai de quem se apega.

Mais que isso. Nossas vidas, a virtual e a real, são ruidosas. Pouco permitem que desfrutemos de nossa própria companhia. Estamos sempre a nos reunir, festejar, visitar, numa sucessão de compromissos. Em todos os intervalos, celular à mão, inclusive na cama, antes de dormir. Ao acordar, lá está ele, bem ao lado, na cabeceira, com sua vertiginosa espiral de novidades e emoções. Curtir, comentar, reagir, replicar, comprar brigas, bloquear, adicionar e começar tudo outra vez. As horas escorrem rápidas e nunca estamos sós.

A quarentena impôs uma solidão nova, um obrigatório estar consigo mesmo. Mudança grande. Sem as demais atividades, restou-nos horas demais para a vida virtual. E ela cansa, consome. Por isso estranhamos. Mesmo os que estão acostumados a viver sós se inquietam.

É que farejamos o perigo. Neste terreno pantanoso do olhar para si mesmo, não há certeza da pisada. O que vemos no espelho é mistério e, vá lá, um certo medo da descoberta.

A questão que pulsa nos subterrâneos do espírito humano não é dita em voz alta: e se faltassem, em meio a tudo isso, as muletas que carregamos? Se não houvesse filmes, séries, energia elétrica, livros, parentes, amigos? Qual seria a nossa reação? Haveria algo em nós capaz de sobreviver a tal paisagem desolada sem enlouquecer de tédio, sem amargar revolta?

A resposta a essa pergunta é reveladora – e cabe a cada um, óbvio. O saber estar consigo mesmo – arte algo esquecida em meio às modernidades tão sedutoras – é essencial quando se pensa em meditação, tranquilidade da alma. A propalada mente calma nada mais é do que adaptação às circunstâncias, autocontrole, resiliência. Ela não se curva ao desespero, mesmo em meio à adversidade. Sabe que cólera, medo e paixões desenfreadas são péssimas conselheiras.

Alcançar este estado de graça é um árduo e longo caminho. Exige treinamento, perseverança, disposição. E, se há de começá-lo, que seja agora, pois, creia-me, será necessário uma hora ou outra.

Neste exato instante, em hospitais do mundo inteiro, há gente isolada. Sem televisão, sem celular, sem viva alma para conversar. Nas UTIs dos mesmos hospitais, muitos morrerão sem que a mão de um ser amado se despeça ou traga conforto. Sozinhos.

Estes não escolheram a solidão. Outros a desejaram.

Sócrates morreu cercado de discípulos, mas, a rigor, estava só. Não havia ali quem estivesse em comunhão com a sua serenidade. Os discípulos estavam aflitos e ele teve de lhes dar exemplo de fidelidade às próprias ideias. Suas horas finais foram usadas para demonstrar o valor de suas teses. Não queria choro ou descontrole. Bebeu a cicuta até a última gota, sem que a mão tremesse. Na hora final, pediu que lhe cobrissem o rosto. Queria a solidão de si mesmo. Não se consegue isso de uma hora para outra.

Na história narrada nos evangelhos ocorre exatamente o mesmo. O Jesus que morre é ainda o homem que ensina, perdoa e exemplifica, apesar do corpo que se finda entre dores. Uma de suas últimas frases é emblemática: Eli, Eli, lamá sabactani (Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?). Não é um pedido de ajuda, nem reclamação. Estava apenas recitando antigo Salmo, o 22, que inicia com esta exata frase.

O poema de Davi fala de um homem desprezado, cujas vestes foram repartidas e as forças secaram. Um homem que morre sozinho e faz da finitude um instante de poética contemplação: “Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas.(…) Mas tu, Senhor, não te afastes de mim. Força minha, apressa-te em socorrer-me“.

Os instantes finais de Jesus são voltados inteiramente para si; a divindade e companhia que evoca estão nele mesmo.

O que fez não é impossível para nenhum outro ser humano. Preparar-se para isto é o desafio que hoje se põe à mesa.

Coragem, pois. Ao olhar no universo de si mesmo, pode-se descobrir galáxias e nebulosas, planetas que giram docemente, estrelas de alta magnitude. Talvez seja assim que o homem aprende a se amar e a estar feliz consigo.

***

Ilustração. Edward Hopper. Morning sun

feminista do bbb

A gente ensina MULHERES que elas SERÃO imediatamente PUNIDAS... é certeza de SÚBITA condenação...
Mas aos homens...as chances , as muitas (até infinitas) OPORTUNIDADES são a todo momento renovadas...
Notem... as mulheres que estão DENTRO do confinamento OUVIRÃO - se for a saída de MAIS UMA  MULHER - que ELAS estão SEMPRE erradas...
 Mesmo aquelas MAIS SEGURAS DE SI vão ENTENDER - pela clareza da RESPOSTA DE UM PÚBLICO - que ELAS não têm segunda, terceira, quarta,  décima, enésima CHANCE...
Mas quem sai GANHANDO mesmo...é o MACHISMO, o patriarcado e a MISOGINIA porque defendem homens CONDENANDO TODO  DIA MAIS UMA MULHER.

(essa é só a minha opinião, não é uma verdade absoluta. RESPEITO completamente visões diferentes, CONTANTO QUE não se promova o fascismo, o bolsonarismo e o genocida)

Foucault e abuso

Gente, vocês viram isso? Uma verdadeira bomba. Gravíssimo, caso se confirme. Segue o texto para quem não é assinante: 

Filósofo que exerceu grande influência sobre intelectuais contemporâneos, Michel Foucault seria um pedófilo que teria feito sexo com crianças árabes enquanto viva na Tunísia no final dos anos 1960. A bomba foi disparada pelo escritor e professor franco-americano Guy Sormon, que contou ter visitado Foucault nos arredores de Túnis à época.

A referência de Sormon aos crimes sexuais do filósofo francês, que morreu em 1984 aos 57 anos, foram publicadas este mês em seu livro "My dictionary of bullshit" e depois reiteradas pelo autor em um programa de TV. O apresentador ficou pasmo: “Você está falando de Foucault, para você um pedófilo, algo que as pessoas não costumam lembrar quando falam dele”.

Sorman, de 77 anos, disse que visitou Foucault com um grupo de amigos em uma viagem de férias de Páscoa no vilarejo de Sidi Bou Said, onde o filósofo morava em 1969. “Crianças pequenas corriam atrás de Foucault dizendo 'e eu ? me leve, me leve'”, lembrou ele em entrevista ao jornal britânico "The Sunday Times" deste domingo.

"Eles tinham oito, nove, dez anos, ele estava jogando dinheiro com eles e dizia 'Vamos nos encontrar às 22h no lugar de costume'". Este, ao que parece, era o cemitério local: "Ele faria amor lá nas lápides com meninos. A questão do consentimento nem mesmo foi levantada".

Sorman afirmou que "Foucault não teria ousado fazer isso na França", comparando-o a Paul Gauguin, o impressionista que fez sexo com meninas que pintou no Taiti, e André Gide, o romancista que perseguia meninos na África. "Há uma dimensão colonial nisso. Um imperialismo branco".

Sorman disse lamentar não ter denunciado Foucault à polícia na época ou denunciado na imprensa, chamando seu comportamento de “ignóbil” e “extremamente feio moralmente”.

Mas, acrescentou, a mídia francesa já sabia sobre o comportamento de Foucault. “Havia jornalistas presentes naquela viagem, havia muitas testemunhas, mas ninguém fazia histórias assim naquela época. Foucault foi o rei filósofo. Ele é como um deus na França."

Foucault, filho de um cirurgião, foi um dos primeiros intelectuais célebres do século XX, autor de obras que até hoje seguem como referências absolutas na academia, como "Vigiar e punir", "Microfísica do poder" e os volumes de "História da sexualidade". O filósofo também é lembrado por assinar uma petição em 1977 para legalizar o sexo com crianças de 13 anos.

A biografia mais conhecida dele, "The passion of Michel Foucault" (1993), de James Miller, descreve seu interesse pelas casas de banho gays e sadomasoquistas da América  —  ele foi uma das primeiras figuras assumidamente homossexuais na vida pública e morreu de Aids  — mas não menciona suas experiências sexuais na Tunísia.

As afirmações de Sorman surpreenderam especialistas na Grã-Bretanha, onde o último volume da história da sexualidade em quatro partes de Foucault acaba de ser publicado pela primeira vez em inglês. Para Sorman, o comportamento de Foucault era sintomático de um distinto mal-estar francês que remontava a Voltaire. “Ele acreditava que havia dois princípios morais, um para a elite, que era imoral, e outro para o povo, que deveria ser restritivo.”

Ele continuou: “A França ainda não é uma democracia, nós tivemos a revolução, proclamamos uma república, mas ainda há uma aristocracia, é a intelectualidade, e ela teve um status especial. Qualquer coisa serve." Agora, porém, “o mundo está mudando repentinamente”, acrescentou Sorman.

O intelectual disse, no entanto, que Foucault não deve ser “cancelado”. “Tenho grande admiração por seu trabalho, não estou convidando ninguém para queimar seus livros, mas simplesmente para entender a verdade sobre ele e como ele e alguns desses filósofos usaram seus argumentos para justificar suas paixões e desejos”, disse ele. “Ele achava que seus argumentos lhe davam permissão para fazer o que quisesse.”

sábado, 27 de março de 2021

holocausto brasileiro de pandemia

O lockdown termina segunda...
O kit intubação dura pouco 
A vacinação é lenta...
A Páscoa NÃO PODE ser comemorada 
A pandemia e os traumas VÃO ENSINAR mais do que a gente imagina.
Não é preciso chorar pra sofrer , uma sábia MULHER brasileira declarou.
CUIDEM UNS DOS OUTROS porque não está nada fácil lutar ATÉ ENLOUQUECIDAMENTE contra tanta barbárie. 
Humanidade tá enfraquecida...
Que a "economia" seja salva para que AS VIDAS PERDIDAS possam ser SACRIFICADAS nesse holocausto brasileiro de pandemia.
Não está fácil sentir a dor de tanta gente e permanecer sendo chamada de "egoísta" porque não passa fome.
Ser obrigado a escolher entre passar fome e estar vivo NUNCA DEVERIA SER UMA ESCOLHA... isso já é CRUELDADE, injustiça,  INSANIDADE, sabe.
Que as nossas energias não sejam exauridas, que a gente permaneça SENTINDO, SOFRENDO,  tendo empatia. 
Ser insensível, anestesiado ao mal desse mundo contra todas as coisas viventes (natureza, animais, gente) É ESTAR um pouco desumano.
Eu prefiro perder sentindo, sendo humana, exageradamente humana...do que vencer com cemitérios repletos de amores da vida de tanta gente como  eu. 
Antes da Páscoa,  vimos com Jesus,  houve a MALDADE e a INJUSTIÇA.  Um homem foi crucificado mesmo sendo inocente,  entre dois homens que eram apenas ladrões. 
Estar entre "ladrões", para Jesus, era mesmo MELHOR do que entre RELIGIOSOS, POLÍTICOS,  RICOS e até entre amigos e familiares... porque HUMANIDADE é uma luta diária e dignidade não pode ser negociada, parcelada no cartão. 
Não quero ovos de chocolate...não há porque comemorar com o banquete.
Porque o banquete do amor NÃO ACONTECE enquanto há mortes constantes, sem nenhuma solução...
Isso é holocausto,  genocídio...
Eu não como nessa mesa e nem  desse pão.
Eu sou radical, meus amigos.
Sou radicalmente GENTE,  não tem um ser humano que não me seja parente.
O mundo chora a dor da gente...e eu sou oceano. Não tem ainda porque controlar meu luto. Que a maldade não se aproxime de mim, eu tenho um propósito em continuar viva para que não tirem amor por gente que carrego  comigo.
Ser amor incansavelmente.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Para muito além do que a pedagogia OPRESSORA, mas um suspeito...um olhar mesmo que visionário (embora velho já) para uma transformação da humanidade por meio de um educação TRANSFORMADORA

Fui professora efetiva  da rede estadual do Maranhão de 2016 até 2019. Profesora do Ensino Médio,  nos 3 anos, com português e redação.  
Minha forma de encarar o papel do professor na escola pública mudou completamente. 
Tivemos resultados sigbificativos em simulados estaduais, URE Zé Doca (IDH médio muito inferior à linha da pobreza ). Nesse caso, eu fui professora em uma sede municipal que fazia o suporte de ensino para POVOADOS, muitos com mais de 60km de distância em chão batido, outros com pontes para dar acesso em rios e até próximas a comunidades indígenas e quilombolas.
O que eu vi:
Alunos no 3° ano que sabiam ler MUITO POUCO, escrever COM MUITA dificuldade e tinham grande parte da família analfabeta.
Quando não havia merenda escolar, passávamos por isso durante alguns PERÍODOS,  até MESES, os alunos tinham um rendimento MUITO MENOR, isso porque a FALTA DE COMIDA é AINDA MAIS IMPORTANTE do que a falta de conteúdo, celular, computador, internet.
Não comer é muito mais grave do que não ter  nem dados móveis para celular, imagine internet BANDA LARGA.
Essa população foi atendida em mais de 75% da sua CARGA HORÁRIA letiva (remota ou híbrida) ano passado. 
Meus amigos professores que são apenas 25% efetivos, isto é,  TEM em sua maioria professores contratados (ganhando 1/3 do salário de um efetivo, sendo  isso mais ou menos R$1500 POR MÊS.   Esses professores fizeram trabalho remoto NO INTERIOR DE UM MARANHÃO sem qualidade de internet,  nem com fibra óptica. 
E os alunos tiveram prejuízos por causa das aulas, mas um pouco, o mínimo possível de alento com o vale alimentação que é MUITO POUCO para alimentar MUITAS VEZES uma família, porque o auxílio emergia do governo federal não chegou exatamente onde deveria porque há muita corrupção,  além de toda a desigualdade social ALIMENTADA pelo sistema genocida do atual irresponsável criminoso da República.
Por isso, o lugar dos alunos deveria ser sempre olhado também por nossa voz política de professores.
Sem o nosso olhar, o olhar da escola enquanto comunidade,  O REAL DIREITO constitucional da educação formal é uma farsa.
Assim que eu vejo.
Todo o apoio qualquer aluno meu, NA SEDUC do Pará,  terá.  Farei o que estiver AO MEU ALCANCE COMO PROFESSORA efetiva que sou, concursado para isso, para dar aos alunos O BÁSICO,  O MÍNIMO que depender de mim.
Assim que penso, porque a minha alimentação está ao menos garantida,  assim como minha saúde enquanto trabalho de casa. É o mínimo da minha parte que vai além do papel de um professor. É a minha ética como educadora em instituição pública nestes tempos DEVASTADORES para todos, mais ainda para aqueles que não tem sequer o básico que eu tenho.
Para mim, isso é romper com uma pedagogia do oprimido e,  ao mínimo mesmo, pensar em uma possibilidade de educação que transformadora e cidadã -  como foi defendido claramente por Paulo Freire, tanto em Pedagogia do oprimido (ou da OPRESSÃO) e "Professora sim, tia não: cartas a quem ousa educar". Esse é  o mínimo mesmo. Nessa situação caótica,  pensar nos alunos que padecem muito mais com esse sistema esmagador de desigual é ética.

[26/3 23:09] Hilda: Se um aluno diz que o governo estadual é ruim por  causa do Lockdown,  a questão  não é política partidária ... A questão é maior
[26/3 23:10] Hilda: O Pará teve HOJE mais mortos do que UM PAÍS na América do Sul,  mesmo com lockdown
[26/3 23:12] Hilda: Se o aluno não tiver de algum modo a ciência de que o Lockdown está salvando a vida dele...e que ir trabalhar "pra poder comer" ou morrer é uma injustiça, uma DESUMANIDADE, ele nunca vai entender a importância da educação  de fato... DAR A DIGNIDADE do conhecimento formal e do reconhecimento, ao menos, da própria cidadania.
[26/3 23:14] Hilda: Esse aluno não está só  expondo o governo estadual...ele está falando do sistema, da educação que é prática e pensada por pessoas.  Minha pergunta é: para  quem é feita a educação pública no nosso país?
Essa pergunta ainda precisamos responder não com palavras...nem com planilhas (com certeza), embora isso seja uma exigência do Ministério Público,  porque se trata de um direito... temos que responder com prática.

quarta-feira, 24 de março de 2021

*À secretária de educação, gestores/as de escolas USES e URES*
Em assembleia geral do Sintepp realizada no dia 23 de março decidimos rechaçar o assédio extremo que alguns gestores vem praticando quanto às exigências da presença de professores na escola, cobrança de relatórios permanentes e em alguns casos da exigência de lançamento de média dos alunos a revelia da situação que nos encontramos, do tipo não fez trabalho lança nota zero.
Saibam todos que vivemos um momento difícil da pandemia e já perdemos inúmeros colegas para essa doença traiçoeira e se caso um de nós servidores venhamos a nos infectar, ou infectar outras pessoas por conta da pressão sofrida pelo superior no cargo isso pode levar inclusive a responsabilização individual pelo dano moral e material sofrido. 
A defesa da vida está em primeiro lugar, saibam que o contato social não ocorre apenas na escola, mas em todos os espaços da vida social e ficar em casa nesse momento é defender o direito de viver, por isso aprovamos coletivamente na assembleia que os relatórios devem ser entregues bimestralmente sem prejuízo dos alunos e da escola.
Atenciosamente.
Abel Ribeiro da Coordenação Jurídica do Sintepp

Carla Diaz e o patriarcado no BBB

Um pai
Eu:  eu te entendo porque conheço também o amor de pai que tens. Vi sempre a tua relação com os meninos ser muito forte. Por isso vou te explicar: não estamos priorizando na discussão ela ter de fato saído ou voltado, sabe. Estamos realmente dizendo que há MILHARES ou talvez MILHÕES de mulheres na MESMA situação que ela, o que é violência.  Ela não ter como perceber o tamanho do abismo em que esteve aprisionada é muito compreensível,  todos os relacionamentos tóxicos ou abusivos nos tornam reféns.  Ela estava,  concordo plenamente contigo, SEQUESTRADA de si. Ela tem o direito de ser devolvida a si mesma, à família e aos seus amigos  de verdade. O ensinamento que fica é: quantas vezes vemos relações ABUSIVAS com mulheres, principalmente,  e NADA FAZEMOS a não ser passar a mão na cabeça do abusador e condenar ela. Por isso  estamos repercutindo em rede nacional um: "acorda, mulher!". No fundo no fundo mesmo, temos a plena convicção ela é MUITO MAIS DO QUE ELE, não poderia estar sendo vista como "boba", "trouxa", "cega de amor", etc. Ela estava sendo sugada por um VAMPIRO EMOCIONAL. É isso. Muito obrigada por você se posicionar. Precisamos de muitos homens com atitudes severas contra outros homens abusivos. ❤❤❤❤❤❤❤❤❤😘❤
*À secretária de educação, gestores/as de escolas USES e URES*
Em assembleia geral do Sintepp realizada no dia 23 de março decidimos rechaçar o assédio extremo que alguns gestores vem praticando quanto às exigências da presença de professores na escola, cobrança de relatórios permanentes e em alguns casos da exigência de lançamento de média dos alunos a revelia da situação que nos encontramos, do tipo não fez trabalho lança nota zero.
Saibam todos que vivemos um momento difícil da pandemia e já perdemos inúmeros colegas para essa doença traiçoeira e se caso um de nós servidores venhamos a nos infectar, ou infectar outras pessoas por conta da pressão sofrida pelo superior no cargo isso pode levar inclusive a responsabilização individual pelo dano moral e material sofrido. 
A defesa da vida está em primeiro lugar, saibam que o contato social não ocorre apenas na escola, mas em todos os espaços da vida social e ficar em casa nesse momento é defender o direito de viver, por isso aprovamos coletivamente na assembleia que os relatórios devem ser entregues bimestralmente sem prejuízo dos alunos e da escola.
Atenciosamente.
Abel Ribeiro da Coordenação Jurídica do Sintepp

domingo, 21 de março de 2021

Uma história evangélica

Passei por um situação dramática em 2019. Eu estava em aula quando um aluno se aborreceu porque dei um exemplo de xenofobia a partir do trump (minúsculo que é). Então,  ele se alterou, foi agressivo e ofensivo verbalmente, por fim, saiu da sala batendo porta. No outro dia, eu soube que a mãe do dito cujo havia ido na escola para deixar o recado de que ele não veria mais as minhas aulas até que o pai dele chegasse de viagem e viesse "resolver" a situação comigo. Foi quando eu descobri que ele era filho do pastor estadunidense que havia chegado naquele interior do Maranhão para "ocupar" e "evangelizar" a cidade - em outras palavras, colonização.  Foi assim que mesmo  tendo família no seu país, fez família no Brasil e se tornou diretor em escola evangélica na capital, depois pastor nesse interior por muitas décadas. Respeitado por sua reputação e muito influente, o homem chegou na escola bastante "ofendido" com o fato de que eu havia sido "manipuladora", "doutrinadora", pois falava até palavrão em sala de aula e não estava capacitada para dar aula  - sou formada em letras, área do conhecimento que é afim de artes, disciplina que eu ministrava posto que nos rincões do Brasil o que se faz é o que há para fazer. Enquanto ele me difamava pelas costas para o meu coordenador que estava totalmente chocado com a situação deplorável que se apresentava. Eu simplesmente fui até a sala do coordenador apenas para dizer que havia passado do horário mais uma vez por uma questão específica com alunos que necessitavam da minha dedicação de modo mais direto. Quando abri a porta fui apresentada para ele. Ouvi o que ele tinha para dizer...mostrei minha aula, o assunto, a competência, disse que o filho dele havia faltado a primeira aula e chegou na segunda aula sem o exercício e ainda quis ter o direito de me ofender, mesmo sendo a autoridade instituída ali. Depois de dar uma aula de cristianismo pré-romano para ele na prática, falando sobre o gesto humilde de Jesus diante dos homens que queriam apedrejar uma mulher,  pedi que ele refletisse sobre a educação cristã doméstica que estava exemplificando, pois o filho dele não tinha humildade de primeiro ouvir e me chamar de modo comedido no corredor porque fez questão de me humilhar na frente de seus pares. Saí com um pedido de desculpa solene, com a certeza de que a LDB seria cumprida (já que o aluno tinha direito e os  pais o dever de mantê-lo em escolarização regular com frequência nas disciplinas propostas no nosso currículo) de modo que fiquei conhecida como a esquerdopata que silenciou o pastor por meio do evangelho.

quinta-feira, 18 de março de 2021

sensível demais...demasiado humanamente sensível

Hannah Arendt "As origens do totalitarismo ", uma descrição analítica da ditadura stalinista. Apesar do exército vermelho, isto é,  os soldados RUSSOS socialistas de Stalin terem vencido HITLER e o holocausto de judeus, como a própria Hannah Arendt - apesar de tudo isso -, um indiscutível processo de exame crítico da forma totalitarista soviética foi feita pela autora. Nesse breve dossiê político que a filósofa fez, ela afirma que o mais radical dos revolucionários,  um dia após a Revolução,  será um conservador (citação indireta,  uma paráfrase técnica). O que não consigo discordar. De fato, há entre o extremismo e o embrião da banalidade do mal uma linha tênue,  independente da ideologia que se carregue em bandeiras mais próximas ou não de um humanismo conveniente. De todo modo, ainda arrisco dizer, há que se celebrar vitórias aparentemente tímidas... Como disse Darcy Ribeiro, um humanista radical, jamais extremista,  eu fracassei, mas não estaria me sentindo vencedor no lugar  daqueles que ganharam nesse contexto. Ou como cantaria o passarinho Quintana...eles passarão, eu passarinho. Existe uma liberdade incorrigível na autonomia de um ser que se envolve em determinadas causas próprias de humanidade...uma delas, é a incapacidade de ser insensível às dores do mundo...poetas como Drummond e Adélia Prado  me representam sempre sobre isso. Para Lispector,  há alguns falta o "delicado essencial", que tiros não sejam classificados como dores seletivas...nenhuma dor humana é vitoriosa. Eu assim acredito.

Professor x Educador... uma distância ainda incorrigível

Meus colegas de profissão, há uma distância imensa entre o educador e o professor de fato. Enquanto muitos de nós estamos com carga horária extrapolada, trabalhando com as ferramentas possíveis, recebendo o nosso salário fixo, fazendo até o impossível para transmitir aulas, conteúdos e demais documentos (como as planilhas). Há os educadores . Educadores de uma pandemia extraordinária . Gente,  sem diploma, sem salário às vezes, doando TUDO QUE POSSUEM de tempo, de mínima estrutura (às vezes somente o celular mesmo, comumzinho) e uma VONTADE INCONTROLÁVEL de transformar o tempo tenebroso em alguma história mínima de esperança. 
CADA VEZ MAIS, eu sinto a plena necessidade de nós professores sermos educadores.  Infelizmente,  nosso diploma, nossas pós-graduações,  nosso concurso e nossa competência no conteúdo específico de uma disciplina, de uma ciência É POUCO. É REALMENTE pouco para o mundo em que de fato vivemos.
Fomos formados em graduações antiquadas, com iniciativas tímidas em relação ao conhecimento DE GENTE.  NÓS NÃO TRABALHAMOS COM CONTEÚDO CIENTÍFICO. Professor é um dos profissionais que mais é desafiado porque trabalha COM GENTE, COM SUAS HISTÓRIAS  DE VIDA,  com seus afetos e desafetos. Pior do que tudo isso, NÓS TRABALHAMOS com o futuro de muita gente.
Vem da nossa CANETADA a ir pra frente de alguém,  em muitos situações - apesar do que garante a LDB, a CONSTITUIÇÃO FEDERAL e o nosso popularesco PAULO FREIRE.
Eu sei...infelizmente,  muitos de nós conhecemos apenas o nome de Paulo Freire e do que ouvimos falar, ou lemos com pressa...eu até acho que lemos penas trechos ou frases  soltas. O caminho de um professor que ouve Paulo Freire é muito diferente do que vemos nos nossos cotidianos até nas lutas sindicais.
Além de Freire, deveríamos conhecer Anísio Teixeira, DARCY RIBEIRO, Rubem Alves  e muitos outros educadores que não pouparam nenhum esforço em QUERER MUDAR A HISTÓRIA  DE UM PAÍSA, e jamais imaginaram ser lembrados ou louvados,  APENAS POR CUMPRIREM SUA FUNÇÃO: ensinar cidadania, dignidade e humanidade para uma população carente do básico.  Honestamente, como professora de português e literatura, PARA MIM, crase e romantismo SÃO infinitamente IRRELEVANTES diante da fome.

A fome é mais relevante do que qualquer conteúdo. A saúde é mais importante do que qualquer competência do Enem.  Nossa frequência é ter ou não ter o VALE ALIMENTAÇÃO de R$80, 00.
Deixo claro, meus parabéns por estarmos fazendo o nosso trabalho pelo qual estamos sendo pagos SEM ATRASOS. 
E, também,  deixo claro meu respeito por uma equipe técnica que ARRISCOU TANTO SUA VIDA e a VIDA DE SEUS FAMILIARES para que o nosso trabalho fosse facilitado no ano de 2020 e agora em 2021.

Aos alunos, eu só quero ser UMA FACILITADORA e não alguém que se soma a toda A ATRAPALHAÇÃO que já está esse país,  COM O GENOCIDA que é presidente . Não sejamos ATRAPALHAÇÃO tal qual esse presidente que sequer votamos. 

Meus colegas professores,  os tempos são de PACIÊNCIA,  humildade e solidariedade.

Desejo um bom dia a todos e saúde para as nossas famílias.

domingo, 14 de março de 2021

eugenia à brasileira????

O inacreditável nessa fantasia eugenista de um percentual significativo de sulistas do Brasil é como eles não representam sequer os segmentos provincianos na Alemanha do século XXI.  É uma coisa tão fantasiosa que nem mesmo Alemães conseguem se referenciar com a alucinação de "raça pura" dessa gente.

Não querer ser "brasileiro" por estar em nossa origem a miscigenação de etnias africanas e ameríndias é de uma pobreza instrucional em História, Geografia, Antropologia e Sociologia que fico imaginando O SACRIFÍCIO de uma pessoa que seja professora dessas disciplinas  nessa circunstância.
Porém, há uma justificativa histórica vergonhosa, pela semelhança com um provincianismo etnocêntrico, supremacista branco,  DOGMÁTICO, nos Estados Unidos que  envergonhou as Américas com o mandato do abutre Trump.

Uma banalidade do mal talvez explicável em um embrião ideológico que coloca na fantasia do ser superior a incapacidade de sentir porque racionaliza demais. Sem nenhuma função científica,  somente com a proposta de explicar em si mesmo a realidade de tudo. Um ser sem sensibilidade para o outro e sem capacidade de humanizar-se, acredito eu que temporariamente. Essa patologia não pode ser inata, isso eu desacredito. O que me faz ser professora,  educadora... já que a educação de fato humaniza a gente.

terça-feira, 9 de março de 2021

álcool, cerveja, mulher, violência doméstica e feminicídio ...uma perspectiva histórica

Lendo "História da sexualidade 3: o cuidado de si", de Foucault,  lembrei de um regime cuja intenção era purificar a sexualidade , equilibrar e promover hábitos saudáveis.  Entre diversas sugestões,  a prática de beber vinho era a melhor avaliada porque tinha princípios masculinos. Isto é, assim como a prática clerical de assimilar o vinho ao sangue do Cristo exaltava essa bebida e seu vínculo patriarcal,  havia outra que era inferiorizada. Adivinha? O costume de beber cerveja. Uma bebida historicamente relacionada ao trabalho de mulheres. Outra leitura indispensável me ratificou isso. Gerda Lerner, em "A criação do patriarcado : história da opressão das mulheres pelos homens", comprova que as fazedoras de cerveja eram as subalternas em propriedades profundamente patriarcais. A misoginia sempre explicaria historicamente a inferiorização do gênero de bebida assimilado ao feminino. Então, essa prática muito atual de cervejaria artesanal é um apagamento (gourmetizador) da relação entre mulheres e cervejas. Um apagamento que garante o maior status para a cerveja artesanal. E, cruelmente, demonstra a relação macabra entre o consumo abusivo de bebida alcoólica (em especial a cerveja, pelo consumo nas classes proletárias) com o índice explosivo de feminicídios. É,  tristemente, diretamente proporcional a relação entre maior consumo de álcool e maior número de violência doméstica  e morte de mulheres. Tudo que escrevi aqui, me perdoe pelo textão, é um desabafo. Eu mesma fui criada em um ambiente com violência doméstica, tentativa de feminicídio e abuso psicológico intenso intimamente ligado com alcoolismo. Eu precisa dizer.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Eu não estou no mundo sozinha. Ao meu redor, andam MUITAS MULHERES MARAVILHOSAS. Então, quando se aproximar,  venha em paz. Eu jamais vou pensar apenas em minha própria "fome de vida". Eu tenho sedes insaciáveis,  eu tenho desejos inomináveis,  eu tenho lutas QUE VOCÊ NÃO PODE NEM NUNCA SABERÁ uma letra... Se vier, venha em paz.
A minha irmandade é pelas MULHERES DA MINHA VIDA.
Minha alma-gêmea é minha irmã Hel Freitas , minha rainha e guia, minha MÃE luz dos meus caminhos. As mulheres que me cercam entre amigas, familiares e pessoas que escolhi fazerem parte do meu universo, TODAS ELAS são MUITO RESPEITADAS por mim.
Se vier, venha em paz.
Nunca esqueça.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

carta à Audre lorde

https://diariosincendiarios.wordpress.com/2018/09/25/carta-a-audre-lorde/amp/

(em resposta ao texto A Transformação do silêncio em linguagem e ação)

“Eu estou aqui como poeta Negra lésbica e sobre o significado de tudo isso repousa o fato de eu ainda estar viva, coisa que poderia não ter sido.”

Audre, em minhas muitas tentativas de romper os silêncios que atravessam meu corpo, eu aprendi que o lugar onde ele se instala é justamente onde mais faz ruídos. E o ruído rasga cada sopro de voz, por dentro, muito antes de se tornar vento.

Desde muito cedo eu fui ensinada a calar, a catar todas as palavras que me vinham à boca e amassar, amordaçar, frear. Aprendi a silenciar todos aqueles rasgos a mim direcionados. Os olhares que me lançavam, como navalhas, reafirmavam cortantes, o peso de tudo.

Eu ainda era menina quando todas essas dores me alcançaram. E não sabia ao certo porque doía, mas sabia o quanto doía. Não conseguia falar, não tinha com quem falar, eu estava diante de mim mesma e sem saber o que fazer com aquela imagem que ecoava dolorosa frente aos meus olhos e sentidos. Fui durante muito tempo o espelho daquilo que me diziam ser errado, feio, sujo. Tentei ser diferente e a cada tentativa frustrada um pouco de mim se esvaia. E você sabe, Audre, o quão é doloroso passar pelas violências que a lesbofobia atrelada ao racismo impõe sobre nossos corpos.

Desde a minha infância fui muito introspectiva, muito silenciosa, muito para dentro. O meu primeiro impulso para fora do silêncio, foi quando, ainda na escola, numa aula de português, sem querer, tropecei em um poema num livro didático e algo em mim se movimentou de uma forma diferente e me impulsionou à escrita.  Pensei: talvez pôr as dores no papel as façam menos doloridas.

Logo quando comecei a escrever não tinha uma consciência exata do que eu pretendia com aquilo e tampouco enxergava a escrita como uma forma de resistência – embora fosse -, só queria um pouco de alívio. O intuído era aliviar tudo aquilo que insistentemente latejava em meu corpo. Busquei nas palavras uma maneira de ressignificar e transformar essas dores em alguma coisa que não me desse um soco dentro da boca. Não foi fácil e ainda não é. Ainda estou nesse exercício de transformar o silêncio em linguagem e ação. Pergunto: um dia deixaremos de ter silêncios a romper? E, certamente, a resposta será não. Porque entre os ruídos e os não-ditos há tantas outras coisas.

Uma vez enquanto conversava com uma amiga sobre toda essa minha dificuldade em romper o silêncio, ela me disse algo que me fez parar por alguns minutos e logo após esse breve momento de paralisia, aquela fala me deslocou. Ela me disse: “As coisas só começam a existir quando você fala sobre elas. Você só vai começar a existir enquanto uma poeta negra e lésbica quando você começar a se enxergar (e se enxergar é estabelecer um diálogo consigo e com os outros) e a falar sobre quem você é e sobre o que é estar nesse lugar”. E isso me causou um imenso estranhamento e espanto logo quando ouvi.  Porque, pela segunda vez, eu saí do seio do silêncio, porque eu queria e precisava existir, e foi como se eu tivesse ouvindo: “Fala para elas de como nunca se é uma pessoa inteira se guardas silêncio, porque esse pedacinho fica sempre dentro de ti e quer sair, e se segues ignorando-o, ele se torna cada vez mais irritado e furioso, e se nunca o deixa sair um dia diz: basta! E te dá um soco dentro da boca.”

Esse sentimento de possível inexistência misturado à necessidade de existir ecoou em mim durante alguns dias. A sensação foi de imersão em mim mesma e nos meus medos. Afinal, o que me paralisava? Após dias em uma conversa muito íntima com o silêncio, cheguei à conclusão de que o que me emudecia era o medo. O medo da visibilidade e do seu enlace mais profundo: a vulnerabilidade. Ao tomar uma assustadora consciência de meus próprios abismos, adentrei uma percepção ainda mais funda: meu corpo sempre foi o alvo e a vulnerabilidade nunca esteve distante de tudo que represento. Continuar cultivando o silêncio se configura como uma autopreservação forjada e agora o meu corpo já tinha consciência disso.

E foi nessa de conversar com o silêncio e apalpar as suas minucias que o atravessei.
Em alguns momentos, trocamos: fui silêncio e ele música, fui nota e ele ficou calado, no escuro. Repare, eu disse, nota. Fui nota, notada, acordes e música. Fui ouvida e falada. Fui a palavra cantada nos meus próprios ouvidos.

Mas, o medo de falar ainda rasga a segurança que cuidadosamente vem sendo construída.
A boca do silêncio ainda arranha as tantas possibilidades de sopro.

Concordo com você, Audre, quando diz que: “Podemos aprender a trabalhar e a falar apesar do medo, da mesma forma que aprendemos a trabalhar e a falar apesar de cansadas.”

E acredito que o silêncio pode ser configurado de duas maneiras: como uma potência significativa ou sendo capaz de produzir a própria noção de silenciamento, que para muito além de estar em silêncio, configura-se como pôr um sujeito em silêncio.

Eu quero poder tocar o silêncio, poder estar em silêncio por escolha, não por medo. Claro, é sim necessário e importante romper o eixo onde o silêncio aprisiona, mas podendo preservar o ponto onde ele é conforto.

O silêncio não é só o que está visível, ou seja, aquilo que está além da boca, ele pode estar também fazendo sentido e significando em outros lugares – às vezes como conforto, noutras vezes, como prisão –  e produzindo nas próprias palavras os ecos desses trânsitos internos. Podermos escolher o momento de falar e o momento de estar em silêncio é um ato de autopreservação, reconhecimento dos nossos limites e respeito aos nossos cansaços.

Eu quero poder me libertar do medo de pôr o meu corpo em evidência, mas ainda restam tantos silêncios para romper.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Muito obrigada pela iniciativa de DIALOGAR. Dialogar, amigas-amigues-amigos, é um fala e o outro escuta. Escutar por sua vez é INDISPENSÁVEL para todos, isto é,  tanto para quem fala, quanto para quem escuta.  Escutar é uma sabedoria elementar mas que não está na moda. Espero que seja possível dialogar de fato com sua gestão,  porque você merece ser ouvido por muitos louvores enquanto profissional e pessoa que és.  Também nossos artistas devem ser escutados em seus gritos simbólicos,  cheios de indignação por muitas vezes serem calados na indiferença,  na ingratidão por seus legados. No mais, vamos sim avançando, progredindo e criando laços de democracia e reparação aos mais indispensáveis atores na cultura da alma. A alma tem sua aventura na percepção.  É arte que chama quando a alma da gente transborda em estética, transformando o instante em intuição sobre um infinito ser.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

monopólio, monogamia, Foucault, Gerda Lerner e muita história pra contar

Eu tenho até uma diferença para essas definições de monogamia e poligamia, baseada em uma ideia que li no livro do Foucault "História da sexualidade: o cuidado de si ". O livro que trata de fato sobre a história da sexualidade - a partir do recorte eurocêntrico do início da era "Depois de Cristo", entre os anos 3 e 5 mais ou menos - traz uma ideia interessante sobre um termo que é "monopólio", uma denominação do Foucault para o casamento heterossexual, que eu chamo de heterodeterminado, o que para mim também cabe na denominação de patriarcal. Essa forma de monopólio serveria, segundo Foucault,  para concretizar o controle sexual tanto de homens quanto de mulheres, principalmente da parcela privilegiada e, por isso, mais representada socioculturalmente. Os dominantes deveriam se casar entre si (o que às vezes seria até um tipo de homogamia, ou casamento entre famílias afins e parentes,  como os Judeus). Esse monopólio, então, para mim, é bastante diferente da monogamia porque ela é intermitente na trajetória histórica dos indivíduos,  isto é, ora somos monogâmicos, noutra polígamos e até passamos algum tempo sem nos relacionarmos afetivamente de modo especificamente,  dito amoroso. Então, para mim, o que conhecemos como monogamia é,  de fato, monopólio que principalmente,  diferente do que propusera Foucault sobre aquele momento histórico é aquele recorte social,  atinge muito mais as mulheres com um controle social, sexual e política indiscutivelmente.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

A formação em saúde é regida por uma heteronormatividade tão brutal que uma mulher lésbica tem seu cuidado em saúde negligenciado por que segundo os profissionais que a atendem, ela é "virgem" e por isso não pode ser examinada da forma como outras mulheres heterossexuais são.

VIRGEM! 2021 e profissionais de saúde ainda precisam do aval de um pênis para fazer o seu trabalho. Assim, uma mulher com endometriose ou outro comprometimento do seu aparelho ginecológico é orientada a não fazer um simples ultrassom transvaginal por que o transdutor vai penetrar sua vagina nunca antes penetrada por um pênis! Afff! Que burrice, que ignorância e que desconhecimento sobre as diversas formas de práticas sexuais, meu povo! Isso é objeto de estudo, também. Pode e deve ser aprendido.

Mulheres lésbicas podem compartilhar objetos durante relações e isso pode ser meio de transmissão de IST's, SIM! Elas devem fazer coleta de preventivo, sim! E se você tem alguma dúvida em relação às práticas sexuais delas e os cuidados médicos que elas demandam, PERGUNTE SOBRE ISSO A ELAS.

Fora que essa ideia de que primeiro precisa entrar um pênis na vagina para que ela possa ser examinada por um profissional de saúde é tão atrasada, machista e nada científica que chega a me dar vergonha.

A vagina é só uma parte do corpo feminino. Mais uma. Sim, envolvida em incontáveis tabus, mas é apenas uma região do corpo que precisa de cuidados específicos.

Acaso a mulher que nunca fez sexo oral com um homem não pode ter sua garganta examinada? Uma mulher que nunca praticou sexo anal não pode ter uma queixa intestinal investigada?

Recentemente, vi a Ginecologista Sincera conversando sobre isso na página dela e os relatos são absurdos.

E tem um debate muito mais cheio de tabu que é o debate da tal da virgindade... O valor que se dá a isso compromete a assistência a saúde das mulheres! Um horror!

E até onde eu sei, a tal da virgindade tem a ver com nunca ter transado. Ou seja, a mulher que foi estuprada nunca transou. A mulher que faz um ultrassom transvaginal nunca transou. A mulher que precisa fazer um exame ginecológico nunca transou. Mas as pessoas estão ligadas numa membrana que precisa estar intacta.

Aí, dessa lógica, nasce a ideia de que mulheres lésbicas que transam e são plenas e felizes exercendo a sua sexualidade são virgens! Que coisa bizarra! É tudo sobre o aval masculino, né. É tudo sobre o pênis, aquele órgão definidor de nossas vidas, da nossa moral, da nossa capacidade de ser mulher, e agora até da nossa saúde... Preguiça!

domingo, 10 de janeiro de 2021

Para minha amora dia e noite,

Vou traduzir o que eu disse...que tem trechos que não dá pra ouvir:

Deixa eu te dizer uma coisa linda...
Existem portas que a gente deixa aberta pra semlre entrar e sair
Mas existem portas que a gente fecha e se tranca, a gente se prende 
É a gente que tem a chave do cadeado da nossa cela
A nossa prisão - na verdade -, passarinha...passarinha...(tu és a minha passarinha predileta)
A nossa gaiola, passarinha, a nossa gaiola-coração tá sempre  aberta...
Mas como a gente tem a chave na mão, a gente pensa que o cadeado tá fechado...
Abre a porta
Abre a janela e vai...
Vai voar...
É que você é grande demais...
o céu inteiro é a sua casa.

A porta nunca esteve trancada, passarinha

mensagem que cura...massagem, ciências, humanidade e corpos que cuidam

Eu faço análise - minha psicanalista me salvou do beira do abismo, estou sempre  preparada para pular.  Tive que dar um tempo da análise durante a pandemia, por precaução.  Fui ao extremo de surtos de pânico, tranquilizante,  sedação...dormir  era coma induzido.  Então, fui ao psiquiatra, tipo ao meu pior inimigo. Ele me olhou como um destroço de gente que eu tava...e disse "junte devagar...seu caquinhos". Disse com uma receita que na primeira vez me trouxe a sensação de que eu estava viva. Tomei os três psicofármacos e senti o corpo que estava vazio...eu era uma alma penada, o espelho tava escondido. Foi assim que peguei o milk, coloquei no táxi.  Mudei de casa. Moro só com ele há 6 meses...quase nenhuma assombração que eu me familiarizara estava mais de companhia da minha própria sombra na luz do mundo barulhento...aterrorizante.  Ter paranoia é viver um delírio.  Eu preciso dos remédios para trabalhar feliz, ler em paz, dormir e existir realmente sem fantasmas (literalmente) - esse é o nome que eu dei aos pensamentos intrusos da minha cabeça sem cuidado de antes. Agora, eu estou fazendo um programa de massagens curativas, terapêuticas... A minha curadora,  uma mulher admirável antes de tudo, completou o ensino médio a duras penas. E eu, repleta de livros, minha bibliografia é sempre imensa, citação direta e indireta é minha senha de banco... que sou só isso... na mão de cura dela, renasço. Pago com vil metal ao que não tem preço, nem mensura. Ela faz massagem com óleos,  cores, meses e energias de uma linguagem que eu não sei ler uma letra. Ela faz massagem que cura gente inteira. Eu me entrego na sua vocação serena de 2 décadas.  Ela me ensina com paciência, cuidado e humildade a ser eu mesma.  Eu gosto do trabalho que reescreve a nossa história. Eu acredito muito nisso.

mulheres que MATAM os lobos

Esse arquétipo do "lobo", "o selvagem do bem", é muito vendável. De fato, a heterossexualidade normativa é um instrumento VIOLENTO para qualquer mulher, eu te entendo muito. Essa situação ABSURDA de mitificar o "macho natureba" passa despercebida...MAS É VIOLÊNCIA. Os homens como sempre estão no topo da cadeia alimentar como predadores, idolatrando-se, gozando em berço esplêndido de uma MASCULINIZAÇÃO da miséria do espírito. Eles são vazios de densidade subjetiva, isto é,  meros fantoches da venda de "afetividade" líquida.  Mulheres estão  no substrato, onde protagonistas se fazem minhocas. As minhocas são indispensáveis para a vivacidade do bioma, mas quem nasceu para ser a própria floresta,  não deveria se colocar em posição de chão para ser pisoteado por abutres. Essa é a minha metáfora de dor, sofrimento psíquico,  quando assisto ao culto desprezível ao que se fantasia de cultura nórdica. Infantis são as analogias ficcionalizadas. Historiografias nunca estão na moda porque trazem dos cemitérios arqueológicos o que de fato foi o humano daquele período.  Então, eu apenas vejo, sinto muito, alcanço o nojo rápido e transbordo em forma de mulheres da realidade - do chão desse mundo - que leio. Só elas me curam. Estou cansada dessas ficções alienantes que são jogadas feito agrotóxicos nas redes sociais em meus pés de realidade onde vivo. Mas...sem que se exista na história,  não se está  vivo. Por isso, eu falo, por isso  eu grito, por isso EU LUTO. Sigamos, como sempre, juntas na luta feminista que nos CUIDA muito . Beijos, paxãozoooona da minha rede social 💜💜💜💜💜♀️💜♀️💜♀️💜♀️💜♀️🌬🍃🤍

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

manifesto educAÇÃO

EducAÇÃO = prática humana de aprender  JUNTO 

Para que a educação seja um DIREITO GARANTIDO precisamos ACABAR COM A MENTALIDADE BANCÁRIA,  mercadológica, de educar.

Professores NÃO são DOMINADORES do conhecimento que DEPOSITAM nos alunos = EDUCADORES somos aqueles que acreditam que TODOS aprendem quando há a DISPOSIÇÃO ÉTICA (HUMANITÁRIA) de construir o processo de aprendizagem DIALOGICAMENTE.

Alunos NÃO são pessoas que precisam aprender algo que não sabem = EDUCANDOS são, juntamente com educadores, PESSOAS que acreditam que aprender é UM PROCESSO DE DIGNIDADE humana a fim de se construir EM CONJUNTO uma comunidade, uma sociedade e uma humanidade cada vez mais JUSTA.

Educação NÃO é escolarização CORPORATIVISTA, MERCADOLÓGICA, NEOLIBERAL, PARTIDARISTA E INSTRUMENTALISTA.

Eu DEFENDO A EDUCAÇÃO PÚBLICA, ÉTICA, DEMOCRÁTICA,  HUMANÍSTICA, ECOLÓGICA, UNIVERSAL E GRATUITA. 

Educação é um saber que seres vivos conduzem historicamente a partir de seus contextos.

Respeito à EDUCAÇÃO é o que eu EXIJO!

O Brasil NECESSITA de educação de verdade.

Vamos defender a educação para a humanidade e para a ecologia ética JÁ!

#eudefendoaeducação

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

atualidades de neofascismo

O fundamentalismo pseudoreligioso, que de fato é uma caça às bruxas atualizada, está descrito nesse mapa.

Ouçam: dízimo em muitas dessas "igrejas" são muitas vezes apenas LAVAGEM DE DINHEIRO sujo do capital GENOCIDA. Não precisam de fiéis vivos...pois não vivem do dinheiro deles, mas da exploração das suas mentes.

Ouçam: mulheres por toda a África, agora no Brasil,  em lugares EMPOBRECIDOS por "grandes investimentos" e por governos neoliberais GENOCIDAS são mortas, têm suas terras roubadas, seus direitos sequestrados.

Ouçam: Nessa forma de tirania, a velhice,  os idosos e, principalmente as mulheres idosas são vistos como estorvo, como alvos de morte...para esse tipo de governo morte de idosos é visto como solução.  Muitos jovens passam a matar seus pais idosos para usarem com liberdade o que herdam, mesmo que seja pouco.

Ouçam: OU MUDAMOS o nosso olhar sobre as pseudoreligiões  cristãs, OU CAIREMOS no mais absurdo lugar onde VIVER É UMA LUTA ÁRDUA e constante.

Cuidado com os tiros, as balas perdidas, os apedrejamentos, os incêndios em templos de religiões de matriz africana e com o assassinato de LGBTQIA e de mulheres cis e trans (especialmente as negras). 
Essa forma de governo é maldade para acabar com a humanidade da gente.
Libertemos o nosso país disso logo.
#ForaBolsonaro

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

delírio de um romance a céu aberto

Eu nasci numa cama d'água, ouça
Numa casa a beira de um rio parado, ouça
Que me observava crescer às margens de tamanha água
Eu nadava em meus braços o rio em volta o rio me levava
Bem-te-vis, canarinhos, ingás, mangas de tantas qualidades
Até que o sol se pôs
As estrelas são penduricalhos de um romance
A beira do rio inundou minha casa margaridas espalhadas
Eu era uma nada conhecia a madrugada
E o rio se mostrou fálico
Romance às margens
Eu conheci a madrugada
Me tornei um nada
Entendi o rio
Eu conheci a madrugada
Me tornei um nada
Entendi o rio
Delírios de um romance a céu aberto
Delírios de um romance a céu aberto
Bem-te-vis, canarinhos, ingás, mangas de tantas qualidades
Até que o sol se pôs
As estrelas são penduricalhos de um romance
A beira do rio inundou minha casa margaridas espalhadas
Eu era uma nada conhecia a madrugada
E o rio se mostrou fálico
Romance às margens
Eu conheci a madrugada
Me tornei um nada
Entendi o rio
Eu conheci a madrugada
Me tornei um nada
Entendi o rio
Delírios de um romance a céu aberto
Delírios de um romance a céu aberto

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

mulher do fim do mundo

Tati Langone o feminismo já foi um movimento de "guerra dos sexos" , sabe😔. Uma ideia que hoje não faz mais o mesmo sentido porque não queremos ser comparadas com homens para sermos exaltadas por isso. Hoje, defendemos que ser a mulher que somos é que deve ser respeitado. O orgulho não é sobre sermos exploradas,  exauridas, humilhadas em relações familiares e amorosas  que nos destroçam e escravizam. Não,  sabe.É sobre enxergar em nós mesmas o nosso lugar de humanidade,  exigir a nossa dignidade e o nosso reconhecimento sobre o que já somos. Não precisamos de aplausos e nem de comparações entre pares ou com homens. Ser a mulher que já somos é a nossa causa. Por todas as mulheres e também por todos aqueles que são juntamente conosco marginalizados nesse modus operandi genocida do patriarcado neoliberal. É por nós,  mana!♀️💜♀️💜♀️💜♀️💜♀️

sábado, 26 de dezembro de 2020

Existe um acontecimento psicológico chamado de Síndrome de Estocolmo. É o "encantamento" pelo agressor que a vítima sofre, tamanho trauma que lhe acomete. O sofrimento psicológico nesse tipo de transtorno afetivo é indescritível e pode levar a pessoa a conceber,  fantasiar (no sentido subjetivo psicopatológico) e até efetivar uma relação "amorosa" com seu agressor. Por isso, é necessário que se discuta os dispositivos de gênero e as redes de violência simbólica em que estamos o tempo todo sendo condicionados e assujeitados. As mulheres sofrem bastante com transtornos diversos após uma violência de gênero (machismo) muito dolorosa, que pode ser impossível de ser significada de modo racional ou compreensível pela lógica de violentado e violentada. Então, é indiscutivelmente lastimável a violência simbólica à qual estamos submetidas. Pode ser esse o caso, assim como pode não ser. Achei interessante levantar essa questão. Muito obrigada por ter compartilhado.♀️❤

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

a uma alma irmã que me fez dizer antes de feliz Natal...feliz renascer em nós

Eu sei, minha querida amiga, que seu Natal está sendo um tanto tristonho.  Amar é assim. Amar sente. Amar chora. Amar cisma em ter saudades, em sentir falta. Amar é humano. Amar é também,  por tudo isso, divino. 
É divino chorar.
É  divino sentir saudades.
É divino perceber em nós a falta que um amor inesquecível sempre vai fazer.
Mesmo assim eu lhe digo, que seu Natal seja celebrado no seu coração. Não precisa de festa, nem de exagerada gargalhada para que Deus se lembre que és maravilhosa, uma filha grata, uma amiga compreensiva, um ser humano amável e pessoa leal.
Enfim, desejo que seu Natal tenha uma oração suave, que te faça dormir. Durma com uma bonita certeza: Deus está contigo e com sua família sempre. Que ele renasça em suas vidas sempre. 
Um Natal de amor e vida para vcs.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Compartilho com vocês esse texto lindo do Papa Francisco. ❤

"O Natal costuma ser uma festa ruidosa, há muito barulho. Nos faria muito bem um pouco mais de silêncio, para ouvirmos a voz do Amor

Natal é você, quando decide nascer de novo, cada dia, deixando que Deus penetre seu interior.

O pinheiro do Natal é você, quando resiste fortemente aos ventos e dificuldades da vida.

 Os enfeites de natal são você, quando suas virtudes são cores que enfeitam a vida.

O sino do natal é você, quando chama, une, reúne, congrega pessoas.

A luz do natal é você, quando ilumina com sua vida, o caminho dos outros através da bondade, paciência, alegria, generosidade.

Os anjos do natal são você, quando canta ao mundo uma mensagem de paz, de justiça e de amor.

A estrela do natal é você, quando conduz alguém ao encontro do Senhor.

Você também é os reis magos, quando dá o melhor que tem aos necessitados

A música do natal é você, quando consegue encontrar harmonia interior.

O presente do natal é você, quando é verdadeiramente amigo e irmão de todo ser humano.

O cartão de natal é você, quando a bondade está escrita em suas mãos.

A felicidade do natal é você, quando perdoa e restabelece  a  paz mesmo que ainda esteja sofrendo.

O presépio do natal é você, quando sacia de pão e de esperança o pobre que está ao seu lado. 

Você é sim a noite de natal, quando humilde e consciente recebe, no silêncio da noite  o Salvador do mundo sem barulho nem celebrações, você é sorriso de confiança e ternura na paz de um natal perene, que estabelece o reino em você."

domingo, 13 de dezembro de 2020

Homens, mulheres, amores ou não. 
Um dia chega alguém...ou alguns...e diz que há regras para você se relacionar melhor e a principal é  respeitar a "liberdade" do outro de ser quem é.
 Porém, as mesmas regras que amparam o outro, nunca servem para você.  Se você gosta de chá e o outro de cerveja. O chá parece careta e encalhado,  nunca vai ter uma liberdade de verdade....e outros blábláblás.
 A cerveja, ah não!, a divina e consagrada. Ela é que é liberdade de fato, seu chá é "controle", é fazer o outro ser "aprisionado". Tem sempre um "deixa ele...deixa ela...deixa ser livre". 
Apesar da "liberdade" que você É OBRIGADO A DAR, em troca de migalhas, NUNCA há uma simples empatia de te perguntar: "amiga, isso te incomodou?", "amiga, você está se cuidando?" Ou simplesmente "eu te entendo porque mesmo sem ser como você, eu SIMPLESMENTE te respeito, mulher,  tu foi sempre foda pra mim."
Ei, mana...ei, mano...ei, mina...ei, mona...ei, mane...EEEEEI, eu sou mais importante do que qualquer coisa para mim mesma. Você que me conhece não deveria me dizer que eu tenho que "priorizar" ou "preservar" esse ou essa ou isso.
Relacionamentos, flertes, transas...tudo isso É POUCO,  é quase NADA, perto da imensidão de una existência. 
VOCÊ sabe que eu tenho outros valores, outros interesses. Você sabe que comigo a vida não é distração. Eu nasci INTENSA, INTEIRAMENTE MINHA... que o outro seja de mim apenas mais uma vastidão e eu minha ÚNICA sentença.

Pela atenção e consideração, obrigada.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

A nossa cura está na luta para que qualquer pessoa no Brasil tenha a possibilidade de ser vacinada. Antes de tudo, é preciso IGUALDADE entre nós. 
Irei celebrar a vacina sim! Aquela que chegará aos irmãos indígenas,  quilombolas  e de outras comunidades tradicionais mais afastadas do centro/urbanidade. 
Celebrarei sim, a vacina que chegar nas crianças,  pessoas  e famílias as quais tenham uma pessoa com peculiaridades genéticas e específicas situações de saúde e por isso estejam ISOLADAS de fato há meses, como  eu tenho na minha família. 
Eu quero celebrar de verdade , meus amigos. Mas não adianta eu tomar a vacina, que sou professora concursada, moradora da região privilegiada e com plano de saúde.  Eu sinceramente quero ser contemplada,  mas POSSO ESPERAR sabe...a minha urgência tem sentimento de HUMANIDADE.
NÃO VOU ESTAR FELIZ enquanto a vacina for um reflexo do PRIVILÉGIO NOJENTO que nos humilha. 
A quem puder tomar a vacina antes de quem realmente precisa, eu desejo consciência.  Ser a prioridade nesse caso É ANTES DE TUDO UMA VIOLÊNCIA reproduzida há milênios...
A transformação que eu acredito não foi escrita em nenhum  livro de filosofia, não está nas instituições de ensino e não é intelectual.
É uma EMANCIPAÇÃO que brota no coração de quem nasce gente independente da DESIGUALDADE CRUEL e vergonhosamente reproduzida.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Infelizmente, há quem pense que estar privilegiado seja a única forma de se proteger da brutalidade de um monstro, ou seja, algumas pessoas acham que se aliar ao inimigo é tipo se proteger do lado dele...quando de fato isso é estar mais perto de quem pode te destruir. Nunca o inimigo da gente deve ser ignorado, sabe. Ao contrário, dar o outro lado da face é saber que ele te humilharia enquanto você o encara de frente sempre em lados OPOSTOS.  A cultura, as artes e a população mais prejudicada com governos neofascistas são exatamente do grupo de Marco Monteiro. O que ele está fazendo é dizer que está com medo de perder "privilégios " que sequer tem, são apenas temporárias formas de manipulação e controle sobre ele. Ele está preso e dando a chave que tinha nas mãos de seus juízes. Espero que saibamos para quem devemos dar às mãos nessas horas. Segurar a mão de um cego no tiroteio é humanidade. Estar atrás de um franco atirador, como se isso lhe tirasse do alvo, é diminuir a distância entre seu assassino e sua própria existência.  Um suicídio iminente.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Menina, pior que a Silvia Federici  em "Mulheres e caça às bruxas ", pág.  68, trata exatamente de como a reforma protestante influenciou na estabilização do Estado liberal extremamente misógino.  Segundo a autora, na mesma página, Martinho Lutero acreditava que as freiras deveriam casar porque essa era a "vocação máxima " (destaque da autora) de uma mukher. Isto é,  no luteranismo mulheres são fábricas de gente e devem  procriar.  Por certo, a radicalização dessa forma de mentalidade não é nem inédita.  Talvez seja um conservadorismo mesmo, como um retorno aos séculos de indiferença em relação ao conceito de dignidade humana, humanidade, humanitarismo e, principalmente,  direitos humanos. Quando achamos que a Idade Média era uma visão católica do mundo, na verdade, não observamos que essa forma autoritária de pensamento e religião é o reflexo de um capitalismo em institucionalização. O patriarcado é o núcleo do capitalismo. Por isso, um depende do outro. Onde há homens em dominação de poder,  há também vestígios do que o neoliberalismo se mostra descaradamente hoje: genocídio daqueles que não aceitam o poder autoritário do mito de um macho mais poderoso do que tudo.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

 assim, professor. Não é que eu tenha metido a discussão de gênero,  é que desde o meu primeiro comentário já estou baseada no que chamo de patriarcado e evoluo argumentativamente como paternalismo. São categorias teóricas de gênero, também. Mas de fato pertencem à historiografia, ao feminismo e à epistemologia decolonial.  Por exemplo, eu citei a Gerda Lerner,  a Grada Kilomba,a Djamila Ribeiro. Para mim, a discussão sob a perspectiva de gênero nunca rebaixa a discussão analítica contextualizada, ela sempre acrescenta uma visão mais contemporaneizada, talvez. Quando eu coloco, por exemplo,  a candidatura de Benedita,  enquanto mulher negra e neopentescotal assumida em comparação com a de Renata também uma mulher negra periférica e voltada para as discussões realmente mais progressistas, você pode até dizer que estou sendo de certo modo intolerante religiosa, o que de fato não é.  Porque sabemos que o neopentecostalismo está se consolidando enquanto uma política de governo, infelizmente conservador e neofascista. Então, não acho que Tatto seja tão irrelevante, porque ele personalizou o que a própria Gleice Hoffman chamou de "militância do PT" o que me parece personalismo. Nesse mesmo sentido, ainda é preciso dizer que Tatto, Boulos, Edmílson,  entre outros são mesmo homens,  o que não indica por si o paternalismo patriarcal,  como eu já havia dito no outro comentário,  uma mulher em Benevides não representa a luta feminista ao contrário é machocêntrica.  Os demais candidatos não são machistas? Quem não tem a mazela do machismo em um mundo machocêntrico milenarmente, segundo Gerda Lerner em "A criação do patriarcado " . Também não é sobre uma guerra de séculos, como um feminismo superficial da década de 20 EM diante ...seculo XX. É sobre uma proposta de leitura do mundo para além da lógica centrada na dominação de uns pelos outros, em que a alienação é uma arma sempre em ação.  Militares não são bélicos por definição,  são pessoas que podem ou não se filiar ao discurso da necropolítica. Deveríamos nós concentrar em ver nossas vulnerabilidade enquanto campo humanitário na política... estamos falando de algo para além de progresso,  mas de emancipação.  Talvez seja uma utopia esse propósito , mas esse é o lema da educação que eu prático como educadora no ensino básico, por isso costumo ser muito analítica.



Hilda Freitas Deixa Tatto disputar para preservar algum espaço. Todos sabemos que em SP não há lugar para as esquerdas agora, desgraçadamente. Por isso mesmo escolheram alguém irrelevante dentro do Partido. Tirar ou botar Tatto não muda em um centavo as chances (pequenas) do Boulos na capital. Inclusive pq, já agora, boa parte do Petismo correu para ele e, vê bem, ganhar tantos votos petistas com candidato do PT em jogo é infinitamente melhor para o PSOL, porque não tá tomando emprestado, apontado, mas certamente conquistando para a posteridade esses votos. Mais ainda, sabemos que 100% dos votos do Tatto vão par o Boulos agora. Não muda nada. Pior para o PT, exclusivamente para o PT, que demonstrou fragilidade. É por isso que a gente não vê Boulos ou Erundina se queixando. Agora, não entendo como meteste a discussão de gênero neste caso porque os candidatos do PSOL seguem sendo homens... Boulos, Edmilson. Tampouco entendo a negação da candidatura de uma mulher negra, a Benedita, por ser protestante (olha, se a gente não abraçar as alas progressitas do protestantismo, vai ser impossível), ao mesmo tempo que se aceita a do PSOL com um vice que é MILITAR (sim, também da ala progressista dos militares). Aí me parece que o argumento não fecha. O Tatto, um nada dentro do partido está colocado na disputa por Ego? Personalismo? Mas aí não teriam que estar o Haddad, o Lula, o Mercadante, Suplicy, Dilma? Então, respeito, mas discordo de tua linha de entendimento. Minha publicação diz justamente o contrário: eleitorado se GANHA com trabalho de base, com política, não com reclamação e falando mal do coleguinha. Abraço.



Em respota:
 
Fernando Maués eu só acho que Boulos não tinha nem  como deixar de se candidatar para ajudar Haddad porque ele não tinha nem a projeção política, nem a referência pública que o ex ministro da educação tinha. Eu entendo que o PT possa colocar candidatos onde e quando bem entender, isso realmente faz parte da democracia brasileira. Porém, gostaria de uma análise mais realista sobre o que se trata de política partidária, política de coligação,  política de representatividade coletiva e política de personalismo (tradicionalista). O que eu chamei de cirismo/cinismo é a incapacidade de se juntar a fim de derrotar neofascismo e conservadorismo, para além de qualquer outro propósito. Veja o exemplo da região metropolitana de Belém,  Benevides elegeu uma mulher,  que não representa a luta feminista, ao contrário é machocêntrica. Lá não houve qualquer reunião de forças "progressistas". Por que não fazer por onde tanto se precisa? Por que deixar Tatto disputar com Boulos onde o neofascismo é dominante. Por que aceitar Benedita como representatividade, se o esforço de quem não consegue sequer imaginar ela como antineopentecostalismo é até imenso. Querer mostrar que tem ainda muita força nas capitais e no país não é sobre política democrática,  mas sobre política personalista e tradicionalista (para não dizer conservadora). Se flertarmos com o que é estruturante no paternalismo, estamos entre vestir a camisa de uma política com vontade de representar a nova era, o século XXI, ou manter certas tradições porque isso é importante. E eu te pergunto: para quem é importante manter certas práticas políticas brasileiras? Me parece, sim, coisa de paternalismo do século XX. Assim eu penso, sem querer ser a única proposta de discurso sobre a atual situação política brasileira porque não sou ninguém para me colocar nessa discussão de forma teórica, já que não tenho nenhum diploma em ciência política. Mas, tenho um lugar de fala com o qual me disponho a debater.



A pergunta:
Hilda Freitas O PT tem direito e legitimidade de ter candidatos onde ele bem entender. Não é a desistência do PT que elege ninguém. Isso, para mim, é o mesmo chororô cirista. Boulos não deixou de concorrer a presidência para ajudar o Haddad, com toda a razão. Querer que qualquer político ou partido abra mão de suas candidaturas é cirismo puro. O PSOL vem fazendo melhor justamente porque não faz esse tipo de discurso antagonizando com o PT. Vai lá, movimenta as bases, ganha o eleitorado. Isso é política. O resto é choro.
E mostrar ao cirismo/cinismo patriarcal que "identitarismo" não só importa como também é a chave para revolucionar por meio de espírito de juventude, que não se trata de idade mesmo.  A juventude espiritual NÃO TEM MEDO DE REALMENTE se desconstruir, não tem medo de dialogar com as várias tribos, não se envergonha de ver que está antiquada e precisa de novidades, não se humilha à toa quando chamada a responder por seus equívocos.  Essas vereanças são uma certeza: machismo, racismo, neoliberalismo e discriminações de sexo,  gênero, etnia, classe social entre outras, devem ser SUBVERTIDAS. Quando Djamila Ribeiro ou Grada Kilomba só escuto reverberar um quilombo de mulheres que dizem não ao silenciamento,  ao controle sexual, ao apagamento histórico e epistemológico, à repressão das nossas próprias revoluções. Toda essa "minoria" é a única fonte de transgressão ao "neoliberalismo neofascista neopentecostal" uma representação clara de como as vozes que sempre quiseram ser as donas da história estão com medo de nunca mais nos emudecer.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Olho os homens,  geralmente brancos, ao meu redor, que estão em suas motos ou seus carros.  Tenho 32 anos, sou concursada há 4 anos, trabalho em minha carreira de professora desde 2011 e nunca consegui sonhar em ter um carro. Sempre ajudei a minha família financeiramente,  sempre me senti responsabilizada pelos problemas alheios à fim de me comprometer afetiva e financeiramente com situações que são provenientes de outras pessoas e não  minhas.  Sigo, para ser sintética,  o exemplo da minha mãe. Ela nunca teve um guarda-roupa que tenha comprado para si mesma porque comprava tudo da casa dos pais, em que os irmãos ou qualquer outra pessoa poderia manusear, quebrar ou depreciar porque por ser do dinheiro de trabalho de 12h em pé no comércio que ela fazia, era visto como pouco. EU QUIS ROMPER ESSA ESCRAVIDÃO.  Sinto como se o senso de fraternidade da família patriarcal do judaico-cristianismo seja de fato como uma mentalidade escravizadora de mulheres. Sinto isso na pele. Vejo muitas mulheres se responsabilizarem sozinhas por seus filhos, por seus afilhados, por seus netos, por seus bisnetos...tudo recai sobre nossos ombros enquanto os homens têm o direito de terem o quiserem, serem o que quiserem, fazerem o que qiiserem,  sentirem o que quiserem, mandarem onde quiserem, mudarem até as leis... Há nessa realidade incontestavelmente milenar, de ao menos 6 milênios,  de acordo com o estudo historiográfico de Gerda Lerner em "A Criação do Patriarcado", VIOLÊNCIA DE GÊNERO.  Existe uma ancestralidade misógina que naturaliza a escravização das mulheres. Então, romper com esse "destino", transgredir essa tragédia é uma reparação histórica muito íntima. Necessitamos arrebentar até mesmo as nossas correntes já que há certo privilégio, indiscutível,  na relação interracial, entre gêneros, intersexual e entre classes na interação das mulheres.  Precisamos muitas vezes  perceber até nossos privilégios a fim de cortar o "cordão umbilical" que nutre o patriarcado em nós, o que se pode definir também de dispositivo materno-amoroso, como denomina  Zanello. Então, é  isso. Na dor de uma, a outra se sente e se aproxima para que se curem juntas.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

DISSIDÊNCIA OU A ARTE DE DISSIDIAR

Há hora de somar

E hora de dividir.

Há tempo de esperar

E tempo de decidir.

Tempos de resistir.

Tempos de explodir.

Tempo de criar asas, romper as cascas

Porque é tempo de partir.

Partir partido,

Parir futuros,

Partilhar amanheceres

Há tanto tempo esquecidos.

Lá no passado tínhamos um futuro

Lá no futuro tem um presente

Pronto pra nascer

Só esperando você se decidir.

Porque são tempos de decidir,

Dissidiar, dissuadir,

Tempos de dizer

Que não são tempos de esperar

Tempos de dizer:

Não mais em nosso nome!

Se não pode se vestir com nossos sonhos

Não fale em nosso nome.

Não mais construir casas

Para que os ricos morem.

Não mais fazer o pão

Que o explorador come.

Não mais em nosso nome!

Não mais nosso suor, o teu descanso.

Não mais nosso sangue, tua vida.

Não mais nossa miséria, tua riqueza.

Tempos de dizer

Que não são tempos de calar

Diante da injustiça e da mentira.

É tempo de lutar

É tempo de festa, tempo de cantar

As velhas canções e as que ainda vamos inventar.

Tempos de criar, tempos de escolher.

Tempos de plantar os tempos que iremos colher.

É tempo de dar nome aos bois,

De levantar a cabeça

Acima da boiada,

Porque é tempo de tudo ou nada.

É tempo de rebeldia.

São tempos de rebelião.

É tempo de dissidência.

Já é tempo dos corações pularem fora do peito

Em passeata, em multidão

Porque é tempo de dissidência

É tempo de revolução

(Mauro Iasi) 

#umachanceprajuventude
#léoreis50456 #PSOL 
#eleicoes2020

domingo, 25 de outubro de 2020

O que me causa FÚRIA é saber que essa gente está em seus carros particulares, andando todo dia de ar-condicionado ligado, com a casa higienizada por outras pessoas , com os filhos estudando por meio de internet "acessível", com família resguardada, com planos de saúde pelos quais pagam até regalias. Covid não mata mesmo esses podres... mata a gente que é vulnerável... em casas em que um cômodo abriga 5/6/7, de faixas etárias diferentes...com a limpeza sendo feita depois de exaustivas horas de trabalho, de transporte público e de alienação neoliberal na mente, dizendo que "vem aí , blackfraude"... Nós compramos a porcaria da produção desses vermes...nós sustentados a ostentação desses abutres...é em cima do nosso corpo que eles têm as mesas tão fartas que cai farelo para que "animalizados" salivemos. A gente não tem só fome mais. A gente tem vontade porque SOMOS humanos também.  Humano quer, deseja, ama. Porém, também odeia, mata e quebra tudo. Quando um deles é sequestrado, morto, assaltado, vitimado de latrocínio SOMENTE um pensamento me vem à alma, a minha alma me grita, "TEVE O QUE PLANTOU!". Eu sei que é errado ser radical, dessa forma. Minha ética sai pela saliva nessas horas. Enquanto o imbecil que se acha o presidente diz "não!" à chance de vida...nós estamos entrando para os números. Somos somente números mesmo. Como diz o abutre branco supremacistas "bilhões,  bilhões, bilhões " e muitos não se comparam sequer a uma vespa.
Francisco é um papa latino-americano, que quando era cardeal na Argentina ia ao encontro de pessoas em situação de rua e marginalização para oferecer um mínimo de dignidade...ia às madrugadas para que não fosse reconhecido.  Andava de transporte público. Fez os primeiros banheiros públicos do Vaticano apropriados (com toda a estrutura digna) para banhos, higienização de pessoas desabrigadas, sem tetos, em situação de abandono familiar ou em situação de rua. Modo de sobrevivência de tantas  pessoas neuroatípica, como esquizofrênico dentre outros. Seu acolhimento político da União Cívil (Casamento Civil) de cônjuges homoafetivos é uma revolução política de um estadista autêntico e contemporâneo às necessidades do nosso tempo. Não há nisso qualquer deturpação teológica,  senão uma reparação histórica à população lgbtqi que existe, ama, mantém sua família em laços incontestavelmente afetivos, amorosos e humanos. A civilização do século XXI merece uma liderança religiosa com a postura ética de Francisco que retoma à  tradição socrática,  equânime, idealista e humanista. O preceito desse ser humano é a humanidade, essência de uma pessoa integral para a sobrevivência e combate ao NEOFASCISMO neoliberalista!

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Qual é o problema da colonização? Achar que tudo é igual a única referência que se enxerga diante do nariz...a própria! Quando  chamam Evo de tirano, ditador, fazem-no apenas por QUANTIDADE DE ANOS. MUITA BURRICE achar que isso por si só já garante um Estado tirano. Os dois anos de Temer no Brasil, por meio de um GOLPE PARLAMENTAR-LOBISTA-MIDIÁTICO foi MUITO mais tirano do que os 32 anos de Fidel como primeiro ministro em Cuba.  Os 2 anos do miliciano, fazedor de rachadinha, no Brasil estou piores do que os 13 do governo ABSOLUTAMENTE ameríndio, contextual, na Bolívia.  O problema da visão COLONIZADA é achar que todos são como a si mesma: EXPLORADORA, DOMINADORA, NEOLIBERAL, IMPERALISTA, ETNOCÊNTRICA, AMERICANIZADA OU EUROPEISTA, BRANCOCÊNTRICA, PATRIARCAL. Não,  colonizados! É exatamente por causa de Evo que Arce se torna presidente. É para libertar a verdadeira identidade boliviana, ameríndia, que EVO enalteceu desde o seu primeiro pronunciamento.  Quem vive sem COLONIZADOR GOLPISTA, NEOPENTESCOSTAL MACHOCÊNTRICO é a América do Sul. Aqui vai ter guerra se vcs vieram tentar colonizar de novo! 
#VivaVenezuelaDeMaduro
#VivaChavez
#VivaUruguaiDeMujica
#VivaBrasilDeMarielle
#LulaLivre
#EleNão
#BolsonaroGenocida
#ForaBolsonaro

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

fraternidade?

Eveny Da Rocha Teixeira pois é competindo por um prêmio.  Eu disse que achei espontânea porque é muito comum nessa situação acontecer...quase um reflexo em algumas situações... notei a agressividade da outra, muito agressiva e sintomática,  porque ela é repetitiva por isso que eu achei instantânea.  Sabe isso para mim é sinal da cultura em que vivemos... É muito propagado que se deve competir entre pares(?). Então,  acaba inflamando mesmo feridas... Eu acho que nossa cultura é muito egocentrada... esse eu ferido entre ambas...para mim, é a natureza da gente. Brigando pra preencher o que é vazio sem solução.

Eveny Da Rocha Teixeira pois é competindo por um prêmio.  Eu disse que achei espontânea porque é muito comum nessa situação acontecer...quase um reflexo em algumas situações... notei a agressividade da outra, muito agressiva e sintomática,  porque ela é repetitiva por isso que eu achei instantânea.  Sabe isso para mim é sinal da cultura em que vivemos... É muito propagado que se deve competir entre pares(?). Então,  acaba inflamando mesmo feridas... Eu acho que nossa cultura é muito egocentrada... esse eu ferido entre ambas...para mim, é a natureza da gente. Brigando pra preencher o que é vazio sem solução.

sobre mitos, tragédias...narciso, zeus...sobre viver na era do hedonismo radical e outros vícios

A diferença entre narcisismo e hedonismo parece não existir na cultura ocidental contemporânea.   
Quando leio a tragédia de Narciso sendo contada como se fosse uma história de alguém que se "apaixona" por si mesmo, que praticamente se idolatra(talvez), isso me deixa intrigada. 
Narciso nem se conhecia,  não sabia o que via, defrontou-se com um abismo (a imagem de si) -  recorrendo aqui à proposta interpretativa de Nietzsche que elucida o aparente paradoxo ao  entender que  olhar fixamente para os monstros pode torná-los algo familiar, pois são como abismos refletidos...
 Digam se não parece essa a situação em que se encontra Narciso,  que morre... (ou se suicida...quem sabe?) ???
Narcisismo parece um termo colocado no mesmo sentido que hedonismo, que é muito mais romano do que grego. Muito mais romântico do que trágico. 
Me parece que sofremos  de um tempo hedonista radical em que o prazer é levado ao seu ápice. Mas isso não é bom. O prazer radicalizado é tirano, autoritário,  controlador, ditatorial. 
Parece mais com um outro personagem da tragédia de Narciso, o pai de Narciso, o ESPETACULAR Zeus, o famoso, o belo, o forte, o sedutor, o maravilhoso líder do Olimpo. O cara da mitologia grega, profundamente hedônico por sinal. Um mito mesmo.  
Todas as besteiras que ele fazia eram "perdoadas" pela sua mulher (ciumenta,  famigerada,  megera) que castigava os filhos de adultério dele, como fez com Narciso.
 Mas eu também tenho uma visão disso, sabe... Sei lá,  talvez a Hera fosse só uma mulher que proclamava tragédias,  como um oráculo,  embora nesta fase da civilização as mulheres já tivessem sido fortemente distanciadas da divindade,  pois a era dos patriarcas já havia se espalhado nos anos 4,3, 2 antes de Cristo (aproximadamente entre 400 e 100 a.c.). 
Perto perigosamente da era judaico-cristã que chegará interpretando ao seu modo tudo que enxerga pela frente. 
Ah, os romanos... não só a língua "socializaram", mas dominaram até os sentidos das coisas...
Bom...é isso.
Queria saber o que vcs acham dessa proposta de acepção dos termos narcisismo e hedonismo que eu tenho?
Boa noite, meus amigos!
Queria só explicar para o editorial do El País que "votos ocultos" nesse caso não quer dizer,  urnas "piratas", que trump está colocando no país "mais"(?) democrático do planeta, vulgo estados unidos,  o paladino da ditadura cruel neoliberal que está golpeando a democracia sul-americana desde 2010. Então, eu queria deixar bem claro que "votos ocultos" deve ser BEM EXPLICADO como INESPERADOS...deus sabe por quem... no caso, a imprensa que é muito democrática por causa dos patrocinadores que apoiam demais essa lógica algoritimica das redes sociais.  Então, a sugestão de fraude que supõe a chamada é um ato falho do editorial.  Infelizmente,  deveria ser mudado se se quer tratar de  América do Sul com olhar contextualizado e não colonizador que isso é antiquado e cheira mal...tipo imprensa passa pano pra golpismo neoliberal/neofascista.

heteronormatividade

Isso nem é heterossexualidade compulsória, sabe. Esse conceito está fora dessa situação.  O nome disse é  heteronormatividade que eu chamo de compulsória,  isto é,  a lógica do dominador/ativo x dominado/passivo na prática do sistema e do que representa Estado como governo no patriarcado. Para essa lógica, se necessita de um ídolo redentor que salve da merda...tipo a Branca de Neve, a Bela e a Fera, o populismo, a lógica de Estado-nação, Pai ou Mãe que faz tudo pelo filho.  Essa ideia de dependência que não é nem sociológica, nem dialética,  mas escravização em prol de uma cultura de dominação/governo para supostamente  "organizar" a sociedade, está bem visível na epistemologia clássica (grega) em Aristóteles no livro "Ética a Nicômaco ", um pai que ensina ao filho, ou na lógica do pastor, ou na lógica da cantiga de amor/amigo, ou nas novelas de cavalaria, satirizada pela poesia de Cervantes em Dom Quixote. É uma reprodução de uma pré-humanização proposital pela qual se dicotomiza, reparte em dois lados, se binariza o olhar para a vida, tem sempre o bem e o mal, o herói e o vilão,  a mocinha pra ser salva, o policial e o ladrão, o professor e o aluno, o marido e a mulher... infelizmente as tiranias desde o início da civilização sempre usaram desse dispositivo:  vulnerabilidade do ser humano. Dizer que há um leviatã...e torná-lo a via para o troféu do deus. Isso é o sistema machocêntrico milenar.

domingo, 18 de outubro de 2020

O mito de medusa foi oralizado, escrito, reproduzido e imortalizado pelo patriarcado MISÓGINO grego. Os clássicos, como principalmente Aristóteles,  venerado em filosofia clássica,  era apenas mais um misógino,  aliás  "pobrezinho" de seu tempo...QUE NUNCA  MUDOU.  Não há inversão em um mito, há a forma como se conta a narrativa,  isto é,  há QUEM conta a história...por exemplo, eu sempre conto a historinha do grandioso fabuloso monstruoso minotauro, como um barulho que inventaram ser esse monstrengo...como ninguém sabia de verdade se existia ou não...UMA MULHER INTELIGENTÍSSIMA suspeitou... ah, a Ariadne! Infelizmente ,  como toda mulher  por mais inteligente que seja faz da sua vida uma tragédia quando acredita no amor incondicional que DEVE ter pelo macho,  que ela tanto precisa para ser legitimada socialmente. Então, como o pai dela disse que quem retornasse do labirinto tendo matado o monstro casaria com sua filha, Ariadne deu um fio para Teseu,  o brega, e ele retornou... Sendo o SUPER-HERÓI da história...o MACHÃO, o TESÃO da história...enfim, feliz para sempre porque ele virou rei e ela mulher do Teseu a ninguém da história...que tem o FIO DA ARIADNE como o núcleo do enredo.  A razão/lógica esperteza de Ariadne fez o Teseu ganhar um trono e ela um casamento,  que desde milênios é o símbolo do monopólio da sexualidade feminina, totalmente a serviço do patriarcado, sem que ela tenha nem direito de pensar em não quer isso para si. Então, a história termina como  os homens gostam... eles sendo AMADOS, sendo o objeto de amor...e a mulher sendo até estuprada maritalmente para suprir ps desejos do grande pai. Por isso, eu digo, o mito de medusa é a fenda que toda condenada à fogueira tem que conhecer... se medusa se torna uma fúria,  um monstro é por sua beleza...Então , que morramos como mulheres endemoniadas,  mas jamais como servas, escravas, estupradas de um merda que se acha deus.

Posso colocar minhas referências no outro comentário para abrir que conheçamos várias leituras a respeito dessa cultura que nos mata todo dia.

sábado, 17 de outubro de 2020

Demi Lovato canta hoje uma canção por todas as Américas 
Ameríndia
Afroamérica
America latina
América dos imigrantes de todas as partes do mundo que chegam aqui por causa da Guerra
 que os brancos RACISTAS Americanos Neofascistas supremacistas bilionários sonegadores de impostos, ladrões de terras alheias, milicianos (como no brasil, minúsculo enCUrralado está) e de ESTUPRADORES.
 A América inteira sofre com a vergonha mundial que é esses governos de homens miseráveis,  medíocres e bandidos.
Não são presidentes, são bandidos que SEQUESTRARAM A DEMOCRACIA .
Mas nossas vozes, nossas lutas, nossos cantos, nossas mentes JAMAIS VÃO APRISIONAR,  CALAR E MATAR.
#MarielleFrancoPresente
#EleNão
#BolsonaroFascista
#genocidabandido
Não é meu presidente e nunca será!

mulher, mãe, a Deusa-Mãe e o movimento childrens free... aiai

Sinceramente,  o movimento childrensfree é um desserviço ao feminismo. É um absurdo querer separar na marra o ser mulher do ser mãe de maneira simbólica.  Fazem igualzinho aos dogmas patriarcais há milênios,  que enterraram literalmente a Deusa-Mãe para colocar no lugar o grande criador de tudo. Não ser mãe como opção é inevitavelmente uma escolha, muitas vezes, dolorosa porque vai contra a santa mãezinha proposta  como uma forma de submissão da mulher no judaísmo machocêntrico sempre. Porém, dizer que isso é pior do que ser mãe no mundo real já é demais! Muito mais as mulheres  sofrem na condição de mães do que de mulheres sem filhos. O sofrimento começa na carne dessa mulher enquanto o sofrimento da outra se torna sempre uma questão ideológica, psicológica, obviamente muito legítima,  MAS NÃO maior do que as das mães e da compulsoriedade da maternidade dentro do patriarcado como vivemos. Isso não é uma pauta sobre ser a favor da descriminalização das pessoas (mulheres e homens trans) que gestam até em caso de estupro. Isso é essencial sobre o ser mulher  diante da nossa indiscutível  natureza. Desculpe o desabafo. Vc me inspira e sabe disso!💜♀️👭🌻

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Nietzsche o andarilho

Quem chegou, ainda que apenas em certa medida, à liberdade da razão, não pode sentir-se sobre a Terra senão como andarilho — embora não como viajante em direção a um alvo último: pois este não há. Mas bem que ele quer ver e ter os olhos abertos para tudo o que propriamente se passa no mundo; por isso não pode prender seu coração com demasiada firmeza a nada de singular; tem de haver nele próprio algo de errante, que encontra sua alegria na mudança e na transitoriedade. Sem dúvida sobrevêm a um tal homem noites más, em que ele está cansado e encontra fechada a porta da cidade que deveria oferecer-lhe pousada; talvez, além disso, como no Oriente, o deserto chegue até a porta, os animais de presa uivem ora mais longe ora mais perto, um vento mais forte se levante, ladrões lhe levem embora seus animais de tiro. E então que cai para ele a noite pavorosa, como um segundo deserto sobre o deserto, e seu coração se cansa da andança. Se então surge para ele o sol da manhã, incandescente como uma divindade da ira, se a cidade se abre, ele vê nos rostos dos quais aqui moram, talvez ainda mais deserto, sujeira, engano, insegurança, do que fora das portas — e o dia é quase pior que a noite. Bem pode ser que isso aconteça às vezes ao andarilho; mas então vêm, como recompensa, as deliciosas manhãs de outras regiões e dias, em que já no alvorecer da luz ele vê, na névoa da montanha, os enxames de musas passarem dançando perto de si, em que mais tarde, quando ele, tranqüilo, no equilíbrio da alma de antes do meio-dia, passeia entre árvores, lhe são atiradas de suas frondes e dos recessos da folhagem somente coisas boas e claras, os presentes de todos aqueles espíritos livres, que na montanha, floresta e solidão estão em casa e que, iguais a ele, em sua maneira ora gaiata ora meditativa, são andarilhos e filósofos. Nascidos dos segredos da manhã, meditam sobre como pode o dia, entre a décima e a décima segunda badalada, ter um rosto tão puro, translúcido, transfiguradamente sereno: — buscam a filosofia de antes do meio-dia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

laços invisíveis que havia

Me lembrei da "síndrome do membro fantasma" que altera a percepção real (?) quando alguém "perde" um membro ou órgão do corpo e continua sentindo ele, incluindo sensações como  dor ou formigamentos (bastante incômodas,  por exemplo). Eu também tenho um ente invisível e, por isso, presente. Por não conhecer pessoalmente meu pai, estive com sua sombra em qualquer lugar por onde à luz me pudesse sentir enxergada. É  como se ele fosse algo que só os outros veem em mim, mas eu não consigo. Ou, noutras vezes, só eu sei dele enquanto aos outros ele é até inexistente. Uma situação indiscutivelmente orgânica para mim  porque faz parte do meu corpo-mundo. E, para além da biologia, fisiologia, metafísica ou até mítica cristã, o que sinto é o que vejo...e o ditado "o que olhos não veem, o coração não sente" não faz sentido...para mim, o que o coração sente, aos olhos não se sabe esconder... e tudo mais é música,  como canta Leoni "e o que vai ficar na fotografia são os laços invisíveis que havia" (Fotografia - Leoni).

sábado, 26 de setembro de 2020

pixo

Fui professora efetiva do estado do Maranhão de 2016 até 2019. Professora de língua portuguesa, redação e artes. Certa aula, me coloquei na posição política de tratar da arte de protesto sem pretexto racista. Foi o que minha rebeldia garantiu. Tratei da diferença histórica entre o pixo e o grafite. Que pixo, ou pichação,  teve origem nos vagões de uma Nova  York desigual, sendo ele proposto principalmente pela voz silenciada do povo negro e periférico.  E que o grafite é mundialmente representado pelas mãos "estéticas" brancas que supõe a arte visual,  enquanto a origem gráfico-verbal da pichação exige o manifesto, a revolta e a reverberação do que não se quer ler, ouvir ou simplesmente admitir existência.  Usei documentários.  Disse claramente que não se confundem as origens entre pixo e grafite,  porque a origem é a pichação,  o grafite é o nome quando o branco coloniza e capitaliza. Eu sei, há grafite de manifestação, há grafiteiros que estão sempre ecoando a matriz dessa arte marginalizada. Porém, é inacreditável que não se leia o racismo nesse fenômeno cultural.